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O término da tranquilidade podre ideológica da globalização | Estudo

1 Um dos grandes entraves à compreensão do mundo de hoje é que leste é demasiadas vezes visto e interpretado por lentes que nos parecem boas, mas, de facto, distorcidas. Em 1989 o final da Guerra Fria – que abriu caminho à globalização, tal uma vez que a conhecemos hoje -, foi visto uma vez que o término da profunda disputa ideológica que marcou o século XX, entre o socialismo-comunista soviético e uma vez que democracias-capitalistas liberais ocidentais . Estas últimas, sob liderança dos EUA, mantem triunfado em toda a traço, tornando obsoleta a luta ideológica e relegando, para os confins do pretérito, uma ramificação tradicional entre esquerda e direita. Um pensamento ideológico-político único tinha-se instalado: era capitalista-liberal (e / ou neoliberal), no campo da economia; e era democrático-liberal (e pluralista) no campo da política. Hoje são muito evidentes uma vez que distorções provocadas por tal visão simplista.

É agora sobejo óbvio que o caso da China foi subestimado, em pessoal a capacidade de prossecução de um controlo efectivo (e dominador) do Partido Comunista Chinês sobre o Estado, uma sociedade e economia, apesar de uma certa franqueza ao mercado. Não foi também percebida a força de ideologias não ocidentais, desde logo do islamismo radical, que é simultâneo religioso-político e recusa a separação, vista uma vez que um artifício nefando dos cristãos / ocidentais, entre a esfera da política e a esfera da religião. Mas, mesmo dentro do Poente, foi mal percebida a vitória na Guerra Fria, quase sempre só atribuída ao capitalismo-liberal e à democracia-liberal. Foi subestimada a preço de uma vitória paralela, ainda que sob forma difusa, daquilo que nos EUA se labareda a Novo Left (Novidade Esquerda) ou, numa designação selecção não totalmente coincidente, uma esquerda multicultural / esquerda radical.

2 As marcas intelectuais e políticas profundas deixadas pela Guerra Fria – e de toda a luta política imediatamente anterior – fez olvidar que existem dois grandes terrenos de discórdia ao nível ideológico, e não exclusivamente um: a economia política e a cultura. Assim, no terreno da economia política ocorrida uma vitória (óbvia) de ideias liberais (ou neo-liberais), tendo uma vez que referências fundamentais Friedrich Hayek, Joseph Schumpeter e Milton Friedman, entre outros. Mas também ocorreram uma vitória (menos óbvia) no terreno da cultura, de ideias da Novidade Esquerda (e de algumas das suas versões radicais), tendo uma vez que referências incontornáveis ​​Michel Foucault, Jaques Derrida e Judith Butler, entre outros.

Paradoxalmente, as ideias que triunfaram na globalização, à direita e à esquerda, nas margens. No pós-II Guerra Mundial, o pensamento liberal (e / ou neoliberal) era minoritário e relativamente marginal, num sistema escravizado até aos anos 1970 fundamentalmente pelo keynesianismo e com subtracção do impacto do marxismo. A partir dos anos 1980, esse ideário conquistou o terreno da economia. Sinal evidente do seu sucesso, é a atual massificação das ideias do indumentária, do empreendedorismo, da inovação, da franqueza dos mercados, da superioridade da iniciativa econômica privada, etc.

Também o pensamento da Novidade Esquerda (e da segmento da esquerda radical), uma minoria atuando também a partir das margens do sistema social e político até aos anos 1960, fez o seu caminho vitorioso. Ideias, práticas sociais e valores que até aos anos 1960/1970, ou ainda mais primeiro, eram vistas uma vez que radicais e marginais tornadas-se comuns e hoje surgem uma vez que tendo ressaltado valor moral: paridade plena de género, direitos das minorias, liberdade sexual , estilos de vida alternativos para conúbio e família nuclear, etc.

3 – No Poente, os nascidos nas últimas décadas do século XX e inícios do século XXI foram – e continuam a ser – socializadas nesse período misturar de ideias, práticas e valores. Na família, na escola, nos meios de informação e nas redes sociais, nas universidades, são fundamentalmente estas ideias transmitidas, absorvendo algumas partes da sociedade mais a ideologia do pensamento parcimonioso liberal (e / ou neoliberal) e outras partes a ideologia da Novidade Esquerda (multicultural) / esquerda radical. A ensino / ensino está largamente dominada por estas duas ideologias.

Mas esta forma de funcionar no Poente, sempre foi uma convívio frágil e só (muito) superficialmente harmoniosa. Na verdade, é um pouco até bastante contra natureza, pelo menos sob o ponto de vista das visões últimas do mundo que estão subjacentes. À direita, a vitória sobre o socialismo-comunismo na Guerra Fria – e a falência do padrão de economia de direcção médio planificada onde os Estado monopolizava a operosidade económica – criou, em muitos, uma teoria errada de não viver competição ideológica à profundeza.

Inebriada pela vitória no campo da economia política, a direita deixada o terreno cultural quase todo para a Novidade Esquerda (multicultural) / radical esquerda, vendo-o, com sobranceria, uma vez que um pouco menor (não dava lucro). Quanto à esquerda, claudicou, de facto, quase totalmente no campo da economia política, tornando-se o velho ídolo (Marx), quase um espectro – na prática aceitou, ainda que a contragosto, uma supremacia liberal (e / ou neoliberal ) na economia. Paradoxalmente, a roteiro no terreno da economia política, associada à arrogância vitoriosa da direita, facilitou o aumento da influência da Novidade Esquerda no terreno cultural durante a era da globalização.

4 – O que na última dez temos estado a presenciar no Poente é a um desintegrar dessa espécie de entendimento tácito de secretaria das esferas de influência sobre a vida humana, entre a direita e a esquerda. Até há pouco tempo, o ideário parcimonioso liberal / neoliberal de Friedrich Hayek, Joseph Schumpeter e Milton Friedman e outros, convivia alegremente com o ideário anti-liberal e anti-capitalista de Michel Foucault, Jaques Derrida e Judith Butler e outras figuras intelectuais ícones da New Left.

No cerne dessa desintegração está a globalização e uma vez que transformações que provocou, uma vez que fizeram rebentar uma tranquilidade podre ideológica instalada desde o final da Guerra Fria. Na sua faceta econômica e mercantil a globalização foi fundamentalmente impulsionada pela direita liberal (e / ou neoliberal). As suas ideias de comentários, mercados globalmente abertos, supremacia quase absoluta da economia privada etc., levaram a crescentes desigualdades sociais entre aqueles que se adaptaram muito, tirando vantagens das oportunidades ligadas aos mercados globais e à lógica econômica privada, e que sofrerem mormente os seus impactos negativos.

Embora sem invocar globalização – e oficialmente ser uma sátira cáustica desta -, na sua faceta de fluxos globais de pessoas, desde migrantes económicos a refugiados, a globalização foi também muito estimulada e impulsionada pela Novidade Esquerda / multicultural. (Isto, evidente, a par do interesse material-empresarial lucrativo, de dispor de uma mão-de-obra abundoso e barata). Quanto à esquerda, viu aí um novo terreno para prática o seu programa de resguardo dos grupos minoritários e de causas humanitárias. E viu também aí um proveito político interessante, pois os fluxos migratórios podem aumentar-lhe a clientela política, o que dava muito jeito numa profundeza em que o proletariado – no sentido marxista do noção – cada vez mais escasseava no Poente.

5 Uma vez que resultado, uma acalmia ideológica instalada desde os anos 1990 – na verdade, mais uma tranquilidade podre ideológica, pelas razões apontadas -, um qual parecia trazer consigo simetria social, progresso e de bem-económico estar, está a desintegrar-se. É talvez um resultado inesperado para muitos. Todavia, olhando com mais atenção, não é um resultado muito surpreendente. Uma vez que notado, quer as políticas económicas e comerciais impulsionadoras da globalização (ao paladar do ideário liberal e / ou neoliberal da direita); quer as políticas também impulsionadoras da globalização, mas de franqueza aos fluxos migratórios globais (agora ao paladar da Novidade Esquerda / esquerda multicultural), para além dos seus méritos, trouxeram fatões sociais e políticas que hoje estamos a sentir em pleno.

O resultado foi fazerem explodir uma vez que contradições do mix de ideias que triunfou em seguida a Guerra-Fria. A direita, agora mormente numa versão de direita radical e / ou populista, contesta, entre outras coisas, a esfera de influência (preeminência) da esquerda no terreno cultural e dos valores, abrindo uma novidade frente política – a guerra cultural. Fá-lo de uma forma agressiva que a direita-tradicional, concentrada na economia e imbuída de ideias liberais / neo-liberais, nunca fez, seja por licença (in) voluntária ou por incapacidade de entrar nesse terreno.

Quanto à esquerda, para além de se sentir ameaçada na sua esfera de influência originário – e de retaliação usando a sua primazia no terreno mediático e intelectual -, volta agora a dar sinais de querer entrar no campo da economia-política que tinha menosprezado desde o final da Guerra-Fria. Ver os efeitos nos desastrosos da pandemia da covid-19 sobre a economia (privada) e no retorno do Estado-interventor, uma oportunidade para alongar o liberalismo parcimonioso e reciclar as antigas ideias de uma economia sob controlo público. É leste o confronto político-ideológico que está em marcha e vai marcar uma globalização em retrocesso a que já estamos a presenciar.

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